Tags

, , , ,

Alérgico a pêlo de gato e baba de cachorro, Pedro nunca havia tido sequer um único animal de estimação. Era só chegar perto de um bichano que começavam os espirros e coceiras – inevitáveis, por mais fortes que fossem os antialérgicos. Restavam-lhe os sonhos, onde criava os seus próprios companheiros: gatos pelados, cães com cabeças de peixe, lagartos com asas de borboleta. Sempre um diferente por noite, já que todos tinham o péssimo  hábito de desaparecer aos primeiros toques do despertador. Até esta manhã.

 Quando acordou, o dinossauro ainda estava ali. A pele escamosa violeta, as orelhas de coelho, tudo ainda estava ali: os olhos pidões, que o haviam acompanhado durante a noite, agora o encaravam frente a frente. Nada mais natural, pensou o menino. Todas as madrugadas pedia aos amigos que ficassem até o amanhecer; uma hora teriam de aceitar.  

 Contente, preparou a ração para Dino, como logo o apelidou, escovou suas escamas, comprou-lhe uma coleira e levou-o para uma volta no quarteirão. Todos o cumprimentavam pelo novo animalzinho, faziam-lhe cócegas, jogavam-lhe brinquedinhos. À noite, depois da escola, Pedro foi recebido com pulinhos – que quase o derrubaram – e lambidas. Preparou o banho do pequeno dinossauro e colocou-o para dormir ao pé da cama.

 De manhã, o animal pré-histórico havia se transformado em búfalo, com penas de águia. No dia seguinte era um canguru, com olhos de panda. Depois, tigre sem dentes; lebre com asas, ornitorrinco sem bico. Dia após dia, mês após mês, Pedro sempre seguia a mesma rotina, descobrindo os gostos de cada bichinho, alimentando-os com carinho.

 Uma noite foi diferente. O rapaz não queria acordar: o sonho havia sido tão bom, que a possibilidade de que ele se perdesse com o despertar o aterrorizava. Até o último instante – na luta silenciosa do inconsciente contra a consciência- resistiu ao chamado insistente do despertador.

 Assim como acontecia com seus animais, o desejo dele havia se transformado. As vontades do menino davam lugar agora aos anseios do homem.  Quando finalmente abriu os olhos, ficou aliviado: a moça ainda estava ali. Lindíssima, assim como que tirada de capa de revista. Não sabia como chamá-la: Dino definitivamente não parecia mais adequado. Não sabia como tratá-la: ainda era seu bicho de estimação?

 Fato era que ela continuava ali.  E sendo o sonho de um também sonho do outro, a confusão dele era igual a dela. Como se houvesse entre eles um fino espelho, dos dois lados se via a mesma expressão aturdida.

 Até que ela percebeu.

 Na imensa nuvem noturna em que se misturam desejos de todos os cantos, dois sonhos haviam se cruzado e estavam irremediavelmente fundidos. Transportados pelo amanhecer, os sonhadores podiam agora ver-se face a face.

 Acontece que todas as noites, nos sonhos da moça, diferentes namorados ganhavam vida para tomar o lugar deixado vago durante o dia. Loiros, morenos, irlandeses ou jamaicanos: os pretendentes iam também se metamorfoseando.  Para ela, pouco importava se eram gordos ou magros, míopes ou estrábicos. A única exigência era que gostassem dos seus companheiros mais queridos: uma exótica família de aranhas africanas, cinco lagartos asiáticos e um macaco prego.

 Ao encarar seu par novamente, ela entendeu. Nada mais natural, pensou então. Um dia, um dos namorados aceitaria o convite para o café da manhã.

*esse texto é um exercício feito a partir do microconto de Augusto Monterroso.

Anúncios