Achei uma agenda 2013 novinha perdida no fundo da gaveta. Um soco no estômago e já é novembro. Aquela sensação apertada de mais um ano inteiro que poderia ter sido… e será que foi?

Abri em janeiro. Ironia pura. No dia 2, escrevi:
nunca consegui manter uma agenda, mas quem sabe consiga tocar uma espécie de diário…

Não deu muito certo, óbvio. Difícil mudar velhos hábitos – ou, pior ainda, um não-hábito. Minha persistência durou até o dia 3. Estava lendo o Barba ensopada de sangue, do Daniel Galera, e guardei um pedacinho:

O repertório de carícias de uma pessoa é uma coisa comovente de se pensar. Por que toca nas outras dessa ou daquela maneira. Vem de tantos lugares. O que imaginamos que deve ser bom, o que nos disseram que é bom, o que fizeram em nós e gostamos, o que é involuntário, o que é nosso jeito de agradar e ponto. Ele goza praticamente em silêncio ou, pensando bem, em silêncio total.

Delícia de trecho, penso de novo. Impossível não repassar, gesto por gesto, uma coleção de cafunés, mordiscadas, apertões, desde aquele primeiro beijo, no pátio da escola…

Sábado fui ver a exposição do Cazuza no Museu da Língua Portuguesa. Numa das salas, as telas exibiam depoimentos com  causos, curiosidades. Alguém resolveu explicar os “segredos de liquidificador” da letra do Codinome Beija-flor. Resgatei o escândalo que foi a primeira língua na orelha… Quase corei! (teria corado, se fosse do tipo que cora de fato)

Agora me consolo: acho que um repertório de carícias é melhor que agenda, melhor até que qualquer diário que se possa escrever.

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