Vamos conversar amenidades, meu bem.

Me fala mais uma vez que número você calça, que cerveja você toma. Conta que trabalhou até tarde e me lembra que odeia peixe cru.

Ou não diz mais nada. Senta aqui do lado, vamos ver televisão. É que você aí quietinho já é vida demais pra eu fazer caber dentro da minha.

Preciso de mais tempo, querido.

Deixa eu me acostumar com o seu tamanho todo, seus braços compridos. Deixa eles darem voltas em volta de mim até o infinito.

A verdade é que não te chamo de querido, muito menos de meu bem. É sempre só um oi vago, um tchau molhado. Melhor a gente não entrar nesses romantismos.

Eu mato as baratas da sua cozinha, mas tenho medo de romantismos, meu amor.

O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
-Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com sua cara.
A moça olhou de lado e esperou.
-Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listrada?
A moça se lembrava:
-A gente fica olhando…
A meninice brincou de novo nos olhos dela.
O rapaz prosseguiu com muita doçura:
-Antônia, você parece uma lagarta listrada.
A moça arregalou os olhos, fez exclamações.
O rapaz concluiu:
-Antônia, você é engraçada! Você parece louca.

do Manuel Bandeira.

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