Poeminha inspirado na tragédia do jornal

Cortaram as luzinhas do carrossel
Arrancaram a cabeça do corcel
Morreram de tédio as diversões
Neste meu parque sem emoções

O trem fantasma parte em outra rodada
Enquanto a roda gigante, sempre interditada.
E a montanha russa, coitada!
Não leva nem mais alma penada.

Apesar da catraca emperrada,
Já não há mais fila para nada
Desde que me atirei lá do alto
E caí de cara no asfalto.

DIVER

 

Sem motivo

E escrevo como as aves redigem o seu voo: sem papel, sem caligrafia, apenas com luz e saudade. Palavras que, sendo minhas, não moraram nunca em mim. Escrevo sem ter nada que dizer. Porque não sei o que te dizer do que fomos. E nada tenho para te dizer do que seremos. 

— Em ‘Antes de nascer o mundo’, de Mia Couto

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fotografia: Cris Komesu

Coração vagabundo

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Sentia dores, estava sufocado. Queria bater mais forte, mais rápido, mas os ossos rígidos da caixa toráxica o comprimiam.

Talvez seja mal de Chagas, pensou.

Mas aqui, em plena metrópole? Pouco provável. Quem sabe uma hipertensão, um sopro, enfarte iminente?!

Resolveu não esperar pra ver. Aproveitou um suspiro especialmente profundo, daqueles que vêm cheios de lamento, bem lá de dentro. Espremeu-se pelas vias respiratórias. Expeliu-se de uma vez.

Já liberto, surpreendeu-se: quantos corações independentes! Quanta gente de peito vazio a vagar por aí.

Logo informou-se sobre os modos de sobrevivência fora da corrente sanguínea: se mantivesse a boa forma, poderia fazer carreira como modelo em propagandas de margarina, posar para os cartões do Valentine’s day.

Caso tivesse problemas, a solução seria apelar pro Hospital do Coração. Quem sabe até fazer aparições em convenções médicas, estampando slides de powerpoint. Lá, quanto pior, melhor. 

Cronicamente arrítmico, mas nem tão mal assim, assumiu sua condição primeira: ser um coração vagabundo. 

Queria apenas poder bater tão forte como os amplificadores num show de punk rock. E vibrar tão suave quanto as cordas de um violão de bossa nova. Tudo ao mesmo tempo, tudo sem meio-termo. 

 

Pra não passar em branco

Foto: Cris Komesu

Passado o ano, despertei folha em branco.

Papel perdido entre páginas brancas.

Pálida assim, quase desapareci.

 

E como precisasse um pouco de cor,

Parti em direção ao parapeito

A pegar um bronze nesse calor.

 

Sol não havia lá, mas que vento!

Logo veio uma rajada me levar.

E já que papel é leve, me lançou a viajar.

Assim, bem devagarinho

Valsando pelo ar, fui caindo.

 

Até me esticar em solavancos,

Me desvirar pelos cantos,

Me dobrar em origami branco.

Com asas de cegonha, a voar

*

Mais um? >> Esse branco, esse tanto

Adeus.

É verdade que a morte, assim,

numa velhice bem velhinha,

de uma vida bem vivida,

não deveria ter tristeza alguma.

Se a gente fosse sábio o bastante, poderia até comemorar, por que não?

…mas e a saudade, como é que fica?

* O funeral na Vila dos Moinhos, um dos Sonhos de Akira Kurosawa. Não encontrei o trecho completo, mas se você ainda não viu esse filme, pode me pedir emprestado já)

** Outro sonho aqui.